segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Introdução - O Mar Estava Agitado

O mar estava agitado. A pequena embarca√ß√£o se afastava com dificuldade, buscando alcan√ßar o navio que esperava para partir. Com as vestes ensopadas e √°gua at√© a cintura, Jo√£o1 e os outros Crist√£os tentavam atingir a praia, mas eram jogados, pelas fortes ondas da arrebenta√ß√£o, exatamente onde acabavam de ser deixados. 

Cefas - uma senhora Crist√£, exilada junto com os demais do grupo - caiu e, na tentativa de se levantar, chorava desesperada:

- O que será de nós agora? Como sairemos deste lugar? Vamos morrer aqui!


Paciente e amoroso, Jo√£o procurava acalm√°-la:


- Tenha fé, minha irmã, Deus nunca nos desampara. Ele sempre cuida de todos.


E enquanto a ajudava a se erguer, prosseguiu:


- Não desanime. Por mais difícil que seja nossa situação, vamos confiar no Mestre.


Um pouco mais confortada, a mulher assentiu com a cabe√ßa e enxugou as l√°grimas misturadas √† √°gua do mar. Explicou a raz√£o de sua ang√ļstia:


- Não temo por mim, apóstolo João, e sim por meus filhos, que ficaram em Efeso. E por eles que me angustio. Estou pronta a dar a vida pelo Senhor, se ele assim o desejar, mas e meus filhos?


Como é difícil para uma mãe ver os filhos ameaçados...

- Eu posso imaginar, Cefas, posso mesmo. No entanto, Jesus est√° no comando de nossas vidas, n√£o est√°?


Cefas o olhava calada e, ao chegarem finalmente à praia, exaustos, ele aconselhou:


- Agora descanse. Precisamos recuperar as forças.


Aqueles eram mais alguns dos muitos Crist√£os exilados por ordem do imperador romano Domiciano. Os componentes do pequeno grupo estenderam-se na areia quente e fina, enquanto tentavam recompor as for√ßas e os cora√ß√Ķes, abalados pela longa e dif√≠cil jornada.


N√£o obstante a solicitude com que atendia e se preocupava com todos, Jo√£o parecia cansado. 


Olhou ao redor, notando a beleza do cen√°rio: 

Patmos era uma ilha esplendorosa, localizada no leste do mar Egeu. Acostumado aos encantadores cen√°rios j√° vistos quando sa√≠a para a pesca, e depois pelas viagens que empreendera para difundir o Evangelho de Jesus, ele estava embevecido diante da pequena ilha grega. J√° ouvira muitos falarem daquele lindo lugar, por√©m nunca estivera ali antes. Acomodou-se ao lado dos demais e ficou a contemplar a bela paisagem. 

A brisa perfumada soprava suavemente. O sol se punha devagar, deixando no horizonte um rastro de tons avermelhados e intensos. A vegetação da ilha parecia acalentar o entardecer e recebê-lo com todo o prazer, pois o aroma exalado pelas plantas era doce e agradável.

N√£o demoraria a anoitecer. Ebenezer tocou o ombro de Jo√£o e sugeriu:


- Não seria melhor procurarmos abrigo para passarmos a noite? Será que conseguiremos encontrar ainda hoje outros cristãos, também presos na ilha?


- Não tenho a menor idéia de onde possam estar...


- A ilha é pequena, João, e não creio que estejam muito longe da praia. Seria melhor que nos colocássemos logo a caminho.


Ao observar o olhar de Jo√£o, que focalizava o grupo, Ebenezer aconselhou:


- Embora estejamos todos cansados, n√£o podemos passar a noite aqui. Temos de procurar abrigo.
Jo√£o sorriu ao admitir:


- Seu bom senso é inegável.


E dirigindo-se ao grupo, pediu:


- Vamos, irm√£os, precisamos de um abrigo. Sei que est√£o todos esgotados, mas n√£o podemos demorar mais.


- Também parece cansado, apóstolo. João abriu sincero sorriso e respondeu:


- E estou mesmo! A idade chegou de vez para mim, minha irm√£...


Entregando-se a enorme esfor√ßo, puseram-se a caminho, em busca de outros que j√° estivessem na ilha. Caminharam cerca de meia hora e avistaram algumas casinhas improvisadas, feitas de madeira e cobertas com vegeta√ß√£o. Antes que alcan√ßassem o min√ļsculo vilarejo, alguns moradores correram ao encontro do grupo. Um dos homens perguntou, ainda a dist√Ęncia:


- S√£o crist√£os?


Foi Jo√£o quem respondeu:


- Somos, viemos de √Čfeso.


Um dos que vinham mais atr√°s gritou:


- Jo√£o! Ap√≥stolo Jo√£o? √Č voc√™ mesmo?


Quando reconheceu o companheiro de longos anos, com quem fizera muitas viagens tendo por objetivo disseminar o Evangelho, Jo√£o exultou:
- Ananias, é você?


Ao se encontrarem, trocaram apertado e carinhoso abraço. Emocionado, o mais jovem disse, enxugando as lágrimas:


- Não pouparam nem a você, João!


- Ora essa, e por que poupariam? 


- Já está com idade avançada! Eles deveriam levar isso em conta. Além do mais, você só faz o bem a todos...

Jo√£o sorriu e fitou o outro nos olhos:


- Voc√™ esquece que n√£o pouparam o melhor de n√≥s todos, Ananias? Aquele que s√≥ fez o bem em toda a sua vida? Quem pode exigir ser tolerado ou aceito depois do tratamento que teve o Mestre dos Mestres? N√£o, n√£o podemos nos iludir jamais. 


Nossa luta é difícil. Jesus já nos ensinou que o caminho para aqueles que desejam segui-lo é estreito.

Fez-se longo silêncio, e Ananias convidou:


- Vamos à minha casa. Mesmo pequena e improvisada, todos nos arranjaremos por lá.


Depois de conversarem muito e trocarem informa√ß√Ķes sobre o dia-a-dia na ilha e o que acontecia no continente, com not√≠cias de amigos e parentes de muitos daqueles que ali estavam h√° mais tempo, Raquel, a irm√£ de Ananias, aproximou-se e sugeriu:


- Devem estar com fome. Vou servir o jantar. Embora bastante frugal, vai alimentar a todos.


Depois da leve refeição, sentaram-se à volta de João e alguns pediram:


- João, conte-nos uma história sobre Jesus. Temos ouvido muitas, mas sei que você deve saber de outras que ainda não conhecemos.


O rosto de João iluminou-se, refletindo suave luminosidade que imediatamente envolveu a todos. O cansaço que sentia desapareceu, ele ajeitou-se no assento que ocupava e disse sorrindo:


- E sempre uma grande alegria poder relembrar as experiências preciosas que tivemos ao lado de Jesus de Nazaré.


E p√īs-se a narrar epis√≥dios que vivenciara como disc√≠pulo de Jesus. Ficaram acordados at√© muito tarde, relembrando as doces experi√™ncias.


No plano espiritual, em torno do pequeno agrupamento, brilhava intensa luz. Se os olhos materiais o permitissem, eles se surpreenderiam ao observar a numerosa companhia espiritual com que contavam naquela noite. Um grupo bem maior de espíritos envolvia aqueles que se reuniam na Terra, e com eles apreciava as histórias sobre o enviado de Deus. Entre seus integrantes estava Ernesto, outrora exilado de Capela. Só muito mais tarde, João disse:


- Bem, agora gostaria de descansar.


Ananias concordou com a cabeça e o ajudou a se levantar, enquanto dizia:


- Ficaria aqui a noite toda ouvindo você.


Ao colocar-se de pé, João bateu levemente nos ombros do mais novo e disse:


- Teremos muitas ocasi√Ķes para conversar, n√£o √© mesmo?


- Acha que ainda ficaremos muito por aqui? 


- Quem sabe? De toda forma, vamos aproveitar bem nosso tempo. Tenho uma porção de histórias sobre Jesus para compartilhar.

Depois de acomodar a todos, distribuindo-os pelos espaços disponíveis nas pequenas casas, Ananias voltou, sentou-se e, sorvendo um copo de água fresca, em um suspiro desabafou com Raquel:


- N√£o sei se fico triste ou feliz com a chegada de Jo√£o. A irm√£ afirmou:


- Quanto a mim, estou aliviada por t√™-lo conosco. 


Já estava começando a perder as esperanças...

No dia seguinte, mal os primeiros raios de sol surgiram no horizonte, Jo√£o j√° se levantara e, silencioso, sa√≠ra da pequena cabana que os abrigava. Caminhou devagar em dire√ß√£o ao mar e em algum tempo avistou a praia. Admirou a beleza do alvorecer, com os raios cada vez mais fortes do astro-rei rasgando o c√©u at√© dominar o espa√ßo. O dia amanhecia belo e cheio de energia. 


João olhou ao redor e notou uma pedra bem desenhada que poderia servir de banco. Sentou-se, ainda contemplando o mar e o céu. Depois, indagou em pensamento:

- Deus, meu Pai, Mestre Jesus, o que desejam de mim? Estou aqui, isolado de tudo e de todos. 


Como prosseguir com a tarefa de levar o Evangelho ao povo, de difundir seus ensinamentos, se permitiram que para c√° eu viesse? √Č chegado o momento da minha passagem para o mundo espiritual?

Ernesto, esp√≠rito que fora seu pai em exist√™ncia long√≠nqua, em Capela, afagou-lhe os cabelos e sussurrou-lhe ao ouvido: "N√£o, querido Henrique, n√£o √© o momento da sua transi√ß√£o. Serene seu cora√ß√£o e espere tranq√ľilo. Ainda tem muito trabalho a fazer. Contamos com voc√™, com sua for√ßa f√≠sica e sua f√© em Jesus".


Registrando no coração aquelas palavras, João sorriu e falou baixinho:


-Estou aqui, Senhor, pronto para fazer tudo o que de mim desejar. Sou seu servo.


Ele se calou. Mais uma vez Ernesto afagou-lhe os cabelos e beijou-lhe a fronte envelhecida. Aquela altura João já somava 85 anos de vida, e ainda mantinha vigor físico que impressionava a todos.


O apóstolo continuou a meditar e orar por mais algum tempo. Foi interrompido pela voz amiga de Ananias:


- Sabia que o encontraria aqui.


Jo√£o sorriu para o companheiro, que logo se acomodou ao seu lado e comentou:


- √Č lindo ver o nascer do sol deste local. Muitas vezes tenho vindo para apreciar a beleza e orar... 


- √Č um lugar ideal para a prece. O sil√™ncio ainda domina a paisagem e tudo vai despertando aos poucos, √† medida que oramos. E como se nos integr√°ssemos a toda a natureza, louvando a Deus pelo dom da vida.

Ananias ficou calado. Lágrimas brotaram em seus olhos e lhe desceram pela face. Limpou o rosto, porém elas teimavam em cair. João tocou-lhe o ombro fraternalmente e indagou:


- O que foi, Ananias? O que o entristece tanto, meu irm√£o?


- Eu não entendo bem o que acontece, João. Por que estamos aqui, separados de nossos parentes e amigos? Estamos tentando fazer o bem, conforme Jesus nos ensinou, e somente isso. Não infringimos nenhuma lei, e tantos Cristãos já foram sacrificados, tantos... Por que isso está ocorrendo, João? Você compreende?


- Meu caro Ananias, não se deixe abater. A tristeza pode vir, é normal, mas não permitamos que ela tome conta de nós. Lutemos contra a tentação do abatimento e do sentimento negativo de derrota. Lembre-se de que somos mais do que vencedores por aquele que nos amou até a morte.


Depois de breve silêncio, Ananias continuou, enxugando as lágrimas:


- Eu sei, João, e por isso me entristeço. Não consigo ter fé igual à que vejo em você e em tantos outros cristãos. Apesar de amar o Mestre e confiar nele, às vezes fico realmente cansado de lutar tanto. Por que tudo isso acontece?


- As resist√™ncias e oposi√ß√Ķes que levaram Jesus ao madeiro s√£o as mesmas que nos perseguem e querem nos calar. Assim como acham que emudeceram Jesus, matando-o, pretendem matar a todos n√≥s, para silenciar a pr√≥pria consci√™ncia que lhes desperta sutilmente na alma. N√£o querem enxergar, pois isso os obrigaria a mudar, a abrir m√£o de seus interesses, de seu orgulho, das ilus√Ķes sobre si mesmos e sobre o mundo que acalentam no √≠ntimo. Jesus os incomodou, Ananias, e n√≥s, igualmente, muito os incomodamos.


Ananias ficou novamente pensativo. Jo√£o prosseguiu:


- Apesar de tudo, veja que eles não conseguem calar os cristãos. Alguns realmente foram sacrificados, mas muitos outros estão abraçando a causa do Evangelho.


- E dá para crer que logo seremos aceitos e finalmente poderemos viver nossas vidas, tentando aplicar e ensinar o que Jesus nos deixou? Isso só fará bem às pessoas... Como é possível que não percebam?


Dessa vez foi Jo√£o que nada disse. Ananias suspirou fundo, em curto intervalo, e confessou:


- Estou cansado, Jo√£o. Foi muito doloroso para mim perder entes queridos da minha fam√≠lia. Voc√™ sabe, meu pai e meus irm√£os foram mortos por ordem de Domiciano. Minha mulher e meus filhos est√£o em Efeso, escondidos na casa de amigos. 


Não consigo perdoar totalmente, conforme Jesus nos ensinou. Sinto muita dor no coração, muita saudade...

- Ananias, você sabe que seu pai e seus irmãos não morreram! Estão vivos e a serviço de Jesus, em outra dimensão da vida. Eles estão bem, muito bem!


Subitamente, Jo√£o parou de falar, fechou os olhos por um instante e em seguida os abriu.


- E est√£o aqui agora - disse. Ananias arregalou os olhos e perguntou:


- Aqui, conosco? Eles est√£o aqui?


- Sim. Seu pai pede que você se tranquilize, pois Ester e as crianças passam bem. Estão seguras e bem protegidas.


Ananias, tocado pela energia de amor que emanava do pai e dos irm√£os desencarnados, vertia copioso pranto. Jo√£o prosseguiu:


- Seu pai o envolve em terno abra√ßo, Ananias, e lhe diz que eles partiram porque a hora havia chegado; j√° tinham cumprido a tarefa que lhes cabia na encarna√ß√£o. Agora precisam dar seq√ľ√™ncia ao trabalho, no plano espiritual, e contam com sua ajuda para realiz√°-lo. Eles t√™m permanecido muitas vezes ao seu lado, intuindo-o e orientando-o quanto √† forma de colaborar.


Limpando as l√°grimas, ele disse:


- Gostaria de poder abraçá-los também. Eu os amo tanto...


- Eles sabem, sentem o seu carinho. Todavia, você os ajudará muito mais confiando na Providência e sabendo que continuam por perto.


Ananias calou-se, tomado pela emoção. Aos poucos se acalmou e, depois de prolongado silêncio, afirmou:


- Estou melhor, e só posso agradecer-lhe por me proporcionar tamanha alegria.


Sem dizer nada, João abraçou carinhosamente o amigo. Então, Ananias convidou:


- Não seria melhor irmos? Você precisa se alimentar. Comeu algo antes de sair?


- N√£o. Gosto de orar pela manh√£, antes de me alimentar.


- Só que agora deve comer.


- V√° indo, Ananias. Eu sigo logo atr√°s.


- N√£o, Jo√£o.Vamos, ter√° tempo de sobra para voltar aqui quantas vezes quiser; est√° na hora de cuidar bem de seu corpo, ainda vai precisar muito dele...


Jo√£o ergueu-se e concordou:


- Tem raz√£o; Ananias; vamos indo.


Enquanto caminhavam em sil√™ncio pela trilha que levava da praia at√© a cabana, Jo√£o imaginava quantos crist√£os deveriam estar sentindo ang√ļstia id√™ntica √† que vira em Ananias. Por certo havia os que compreendiam o sentido do sofrimento que lhes era imposto, ao passo que muitos provavelmente se questionavam sobre os motivos de tanta resist√™ncia, de tamanha oposi√ß√£o enfrentada. √Ä medida que pensava, uma id√©ia lhe surgia, clara e n√≠tida, no fundo da mente: escrever aos Crist√£os, esclarecendo e comentando a vit√≥ria do Cristianismo no mundo.


Em pensamento indagou: "Quando começaremos?". E a resposta lhe soou na mente: "Em breve".


Quase um ano se passou. Outros grupos de crist√£os chegaram √† ilha, contando os horrores que muitos estavam enfrentando por causa dos governadores romanos. Por toda a parte era √°rdua a luta dos crist√£os. Certa noite, depois de ouvir alguns deles narrarem o que se passava em diversos pontos da Palestina e de outras regi√Ķes, Jo√£o se recolheu com o cora√ß√£o dolorido. Sabia que o combate seria duro, mas sempre que constatava a aridez do cora√ß√£o humano, e quanto de mal um homem era capaz de fazer ao seu semelhante, ficava triste. Ao acomodar-se na cama, naquela noite, ele n√£o conseguia dormir. 


Virava-se de um lado para o outro, na tentativa in√ļtil de conciliar o sono. Sentou-se, e escutou mentalmente, com nitidez uma voz: "Durma, Jo√£o, aquiete-se e durma. Hoje come√ßar√° a receber as informa√ß√Ķes que dever√° escrever". Ainda sentado, ia questionar, quando a voz pediu com suavidade: 

"Deite-se. Logo você dormirá e então verá, diante de seus olhos, o que deverá escrever".

Acostumado a obedecer √†s orienta√ß√Ķes espirituais que recebia, Jo√£o deitou-se outra vez, procurando pensar apenas no rosto amigo e meigo de Jesus, que trazia na mem√≥ria com todos os detalhes. 


Pouco a pouco a lembrança o acalmou e ele adormeceu. Seu corpo espiritual foi então desprendido do corpo físico e Ernesto, que o aguardava, perguntou:

- Então, Henrique, está pronto para traduzir o que ainda há por vir para os cristãos, as lutas e também as vitórias?


Abraçando o querido amigo, João respondeu:


- Estou pronto para tentar.


- Vamos, est√° tudo preparado. Voc√™ ver√° o desenrolar dos fatos futuros l√° na col√īnia, e, ao regressar, come√ßar√° a traduzir para nossos irm√£os encarnados aquilo a que tiver assistido.
Jo√£o calou-se, pensativo.


- O que foi, est√° preocupado? 


- Ernesto indagou.

- Nunca fui muito bom para escrever, você sabe, não é? Tenho lá minhas dificuldades.


- N√£o se preocupe. Voc√™ ter√° muita ajuda. 


Preparavam-se para partir quando Jo√£o perguntou, com um sorriso:

- Tem visto Elvira? 


- Não, desde que ela regressou para Capela, mas sei que está sempre pensando em nós. Sinto seus pensamentos envolvendo minha mente.

- E como está você, Ernesto?


- Fortalecendo-me com o seu exemplo. João sorriu e abraçou-o.


- Podemos ir agora - falou.


Partiram, Logo alcan√ßaram a col√īnia, pr√≥xima ao orbe da Terra, e l√° Jo√£o p√īde visualizar, numa tela imensa, muitos fatos que ao longo do tempo se sucederiam no planeta. Mais tarde, ao retornar, ele pediu:


- Por favor, Ernesto, precisarei de ajuda para o que devo realizar. N√£o sei como colocar na linguagem dos meus contempor√Ęneos aquilo que vi hoje.


- Voltaremos muitas vezes √† col√īnia. Voc√™ poder√° rever o que para voc√™ for motivo de d√ļvida e conversaremos sobre cada detalhe. Ajudaremos em tudo que estiver ao nosso alcance. Vai dar certo, n√£o se preocupe.


Na manh√£ seguinte, o sol j√° ia alto quando Jo√£o despertou. A cabana estava vazia e ele se sentia atordoado. Sentou-se e meditou um pouco, buscando compreender tudo o que sentia. Ent√£o saiu em busca de Ananias e logo encontrou Raquel, que informou:


- Ananias foi pescar. Pediu que ninguém o acordasse e todos tentamos deixar a cabana sem fazer barulho.


- E conseguiram. Agora, preciso de pergaminhos, pena e tinta. Tenho de escrever.


Imediatamente Raquel correu para a cabana e logo surgiu à porta, avisando:


- Est√° tudo na mesa. Sobre o que o senhor vai escrever? √Č alguma orienta√ß√£o para n√≥s?


- Para nós e todos os cristãos, Raquel.


- Puxa, que notícia boa! Sorrindo, João explicou:
- Vou tratar de escrever, antes que o que vi em sonho esmaeça em minha mente.


Assim, durante os anos que passou na ilha de Patmos, João ocupou-se em registrar, da melhor forma possível, tudo o que observava no plano espiritual, com relação ao futuro da Terra e dos homens. Embora desejasse ardentemente transmitir mensagens de otimismo e esperança, constatava, dia a dia, que o porvir da humanidade seria marcado por uma longa trajetória de dor, lutas e muito sofrimento, até que o raiar de nova era libertasse, finalmente, a consciência humana.


Naquele cen√°rio de rara beleza, Jo√£o escreveu as p√°ginas que seriam conhecidas pelas futuras gera√ß√Ķes como o Livro do Apocalipse, retratando uma das fases de transforma√ß√£o da Terra, em seu processo evolutivo. 


1 João foi um dos doze apóstolos de Jesus.
Capítulo 1 - Roma

Roma, ano 324 da era Cristã. No salão de audiências ouviam-se os gritos do poderoso general:

- Saia j√° da minha frente, verme in√ļtil!


Desapareça, suma, ou não sei o que faço com você!

Lic√≠nio2, agressivo, empurrou o mensageiro que se mantinha curvado diante dele, fazendo-o cair nos degraus da escadaria pr√≥xima. O jovem logo se ergueu e, aterrorizado, saiu rapidamente da sala. 


Sabia do que aquele velho general era capaz.

Const√Ęncia entrou a tempo de presenciar a cena e, verificando a enorme irrita√ß√£o do marido, indagou:


- Por que maltrata tanto o pobre rapaz? Ele trouxe más notícias? O experiente general do império endereçou olhar furioso à esposa e limitou-se a dizer:


- E seu irm√£o outra vez.


Aproximando-se do marido e buscando aparentar calma, Const√Ęncia insistiu.


- E o que foi agora?


- Sei muito bem o que ele planeja, suas inten√ß√Ķes...


- O que houve?


Medindo a mulher de alto a baixo, o general disse, enquanto saía apressado do amplo salão:


- N√£o vai vencer, escreva o que digo... Por Zeus! 


Ele n√£o vai vencer!

Const√Ęncia fez Lic√≠nio estacar na porta ao argumentar:


- Constantino é determinado e ardiloso. Consegue tudo aquilo que deseja.


Ele virou-se para ela e esbravejou, ainda mais contrariado, deixando perceber todo o seu furor contra o opositor:


- Tem conseguido ampliar o território sob seu poder à custa de muito ouro e muitas vidas romanas. Sabe seduzir os generais com seus argumentos e pontos de vista, mas não é perfeito.


Pelos deuses! Quem ele pensa que √©? Quer dominar todo o imp√©rio. Quer tornar-se o √ļnico C√©sar, poderoso e absoluto!

Const√Ęncia afirmou, hesitante:


- Provavelmente sim.


- Pois ele não conseguirá! Vou impedi-lo, custe o que custar! A mulher segurou o braço do marido e advertiu:


- Seja cauteloso. Com Constantino, todo o cuidado √© pouco. Por favor, veja l√° o que planeja. Al√©m do mais, √© meu irm√£o, e n√£o quero que nada lhe aconte√ßa. - N√£o se iluda, Const√Ęncia. Ele jamais teria qualquer piedade de voc√™.


A esposa argumentou:


- Está enganado. Constantino é um homem determinado, ambicioso e astuto, mas é justo. Não faria nada que me prejudicasse, a menos que eu o prejudicasse primeiro. Portanto, pense muito bem antes de agir contra ele.


Sem responder, o velho general desapareceu pelo corredor, deixando a esposa a meditar. Respeitava o marido e admirava o irm√£o; queria bem aos dois, mas temia pelas atitudes sempre intempestivas de Lic√≠nio. Sentou-se e, observando pela janela a movimenta√ß√£o dos soldados sob as ordens do marido, ficou a se perguntar o que exatamente estaria acontecendo. Lic√≠nio se irritava muito com as atitudes de Constantino; embora antes fossem muito pr√≥ximos (at√© mesmo o seu casamento havia sido negociado com o irm√£o, para estreitar os la√ßos entre eles), agora estavam a ponto de um confronto direto. Depois de muitas lutas e combates, mentiras e trai√ß√Ķes, assassinatos e disputas cru√©is, que n√£o poupavam ningu√©m e nem mesmo la√ßos familiares dos mais pr√≥ximos, Constantino havia conquistado toda a regi√£o ocidental do imp√©rio, tornando-se o imperador do Ocidente, e Lic√≠nio era ent√£o o Augusto do Oriente. Ambos dividiam o poder do imenso territ√≥rio sob a √©gide da √°guia.


O olhar de Const√Ęncia, que parecia perdido, encheu-se de temor. Ela continuava a refletir que haviam sobrado apenas os dois e que seu irm√£o n√£o dividiria o poder. Pressentia que eles iriam entrar em confronto direto, e n√£o demoraria muito. 


Tirando de sob as roupas, junto ao peito, uma pequena cruz de madeira que trazia pendurada em uma corda fina feita de couro, apertou-a com uma das m√£os e pediu, baixinho:

- Ajude-me, Jesus, por favor. Proteja Constantino e tamb√©m Lic√≠nio. N√£o deixe que minha fam√≠lia seja dizimada por essas disputas est√ļpidas de poder! Por favor, Nazareno, olhe por mim...


Ainda segurava firme a pequena cruz quando sua serva pessoal entrou, ofegante:


- Minha senhora, precisa vir depressa!


- Calma, Ana. O que foi?


- Venha, senhora, rápido! Uma desgraça está prestes a acontecer! A senhora precisa impedir!


Const√Ęncia acompanhou Ana pelos corredores do pal√°cio at√© chegar √† porta do gabinete do marido que, aberta, permitia que o escutasse a gritar pela sacada do amplo sal√£o, diretamente aos soldados. 


Enfurecido e enlouquecido, ele gritava:

- Meus leais servidores, moradores da bela e poderosa Biz√Ęncio, obede√ßam √†s minhas ordens. 


Quero que todos os funcion√°rios crist√£os deixem seus postos e partam imediatamente. Que n√£o fique um s√≥ em meu reino. Todos fora! S√£o traidores, perigosos, eu os quero longe daqui. 

Todos servem a Constantino!

Const√Ęncia aproximou-se do marido e, segurando-o pelo bra√ßo, implorou:


- Acalme-se, por favor! O que est√° fazendo?


Ele arremessou-a para longe com toda a viol√™ncia, fazendo-a cair sobre um banco e depois sobre uma mesa mais adiante. A serva ia entrar para socorrer sua senhora, que continuava no ch√£o, ferida, quando Lic√≠nio, olhando-a com f√ļria, gritou:


- N√£o ouse entrar em meu gabinete, crist√£ imunda! 


Suma daqui! A ordem é para você também! Suma da minha frente ou acabo com você com minhas próprias mãos! Já! Desapareça!

Em seguida ele voltou para a sacada, e continuou a gritar aos subordinados:


- At√© o final do dia quero todos os crist√£os bem longe daqui. Todos eles, sejam romanos ou n√£o! 


Não quero um remanescente! Aqueles que não concordarem com minhas ordens, podem partir também. Quero limpar meu reino dessa praga e vai ser hoje mesmo.

Const√Ęncia permanecia no ch√£o, desacordada e ferida na cabe√ßa. Total-mente cego pelo √≥dio que sentia por Constantino e por seus freq√ľentes avan√ßos militares, Lic√≠nio escrevia uma ordem expressa para que, em todas as cidades de seu reino, os crist√£os fossem banidos imediatamente de qualquer cargo ou fun√ß√£o que tivessem em qualquer √°rea relevante. Que se tornassem todos es-cravos! Assim que terminou, saiu da sala com o pergaminho nas m√£os e sumiu no corredor, diretamente para o gr√™mio onde ficavam os seus soldados mais graduados. Levava pessoalmente a ordem.


Ana, que se afastara aturdida, buscou ajuda de outra serva de confian√ßa de Const√Ęncia, que mantinha em segredo sua op√ß√£o pelo Cristianismo, e pediu:


- Helena, precisa ajudar a senhora! Ela est√° ferida.
- O que houve?


- Já escutou a ordem do imperador Licínio?


- Sim, j√° correu por todo o pal√°cio.


- A nossa senhora tentou intervir e ele a empurrou...


Ana começou a chorar angustiada. Helena trouxe-lhe um pouco de água e pediu:


- Fale, o que houve?


- Eu acho que a matou...


- Não é possível! Ele não seria capaz... - Acho que foi sem querer. Ele estava com muita raiva, jogou-a com força e ela caiu e bateu a cabeça na mesa... Vi que sangrava... Se não está morta, acho que está morrendo...


P√°lida, Helena ergueu-se dizendo:


- Precisamos ajud√°-la!


- Eu não posso. O imperador me impediu de entrar em seu gabinete e me quer fora do palácio. Se me encontrar de novo por aí, é capaz de me matar...


Precisava ver como ele estava... Parecia fora de si, enlouquecido... Você precisa ajudá-la... Eu não posso fazer nada!

Helena pensou por um instante e, virando-se para Ana, pediu:


- Vá então, Ana, vá antes que ele a encontre. Mas primeiro peça a Juliano para vir até aqui; diga que a mãe está ferida, não fale de suas suspeitas mais graves.


Olhando para o céu, disse:


- Tenho esperança de que ela esteja apenas ferida.


Agora v√°. Procure por Juliano e diga que me encontre no gabinete de Lic√≠nio. Vamos socorrer Const√Ęncia.

Antes de sair, ao alcançar a porta, Ana se voltou e disse, em lágrimas:


- Tome cuidado, Helena. Ele est√° fora de si...


Ana saiu depressa e Helena correu pelos corredores, encontrando amigos e parentes que, com alguns pertences nas m√£os, fugiam assustados. Ela seguiu at√© atingir a parte mais alta do edif√≠cio, onde ficava o amplo sal√£o de Lic√≠nio. 


Observou que estava vazio e correu at√© Const√Ęncia. Havia sangue espalhado sob sua cabe√ßa e Helena constatou que o ferimento era grave. Debru√ßou-se sobre o peito da outra e escutou-lhe o cora√ß√£o. Ainda batia. Logo, Juliano entrou, √† procura das duas:

- Estou aqui.


Ele estava l√≠vido, com as m√£os tr√™mulas e suando frio. Olhou para a m√£e e depois para Helena e perguntou, assustado: 


-Ela... est√°...

- Ela est√° viva, mas precisamos tir√°-la logo daqui e trat√°-la. Se perder mais sangue, n√£o sei o que poder√° acontecer...


- √Č claro! Mas o que foi que deu no meu pai dessa vez?


- Não sei, Juliano. Acho melhor você se preocupar com isso depois. Agora precisamos socorrer sua mãe.


- Claro...


Helena rasgou parte de suas vestes e cobriu o ferimento, procurando estancar o sangramento. 


Assim que o curativo improvisado ficou pronto, Juliano carregou a m√£e para seu quarto e colocou-a na cama.

- E agora, o que faremos? Helena n√£o titubeou: 


- Vou procurar ajuda. Fique aqui com ela e não deixe ninguém se aproximar antes que eu chegue, está bem?

O rapaz balançou a cabeça afirmativamente.


2 Valério Liciniano Licínio, coimperador romano no período de 308 a 324 d.C.
Capítulo 2 - Juliano Sentou-se

Juliano sentou-se √† beira da cama e afagou com ternura o rosto da m√£e. 

Seu cora√ß√£o batia descompassado; suas m√£os suavam frio e de seus olhos desciam pesadas l√°grimas que corriam pela face alva, alcan√ßando, vez por outra, as m√£os de Const√Ęncia. Esta, im√≥vel, empalidecia mais e mais, e agora j√° tinha os l√°bios arroxeados. O rapaz olhava para a porta a todo instante, ansioso para que algu√©m aparecesse em socorro da m√£e. 

Ele a beijou na face e sussurrou, angustiado:

- Por favor, mam√£e, ag√ľente! Helena foi buscar ajuda. N√£o morra, por favor...


Escutou a voz forte e irritada do pai:


- O que est√° fazendo aqui? Onde est√° sua m√£e? Juliano ergueu-se indignado:


- N√£o est√° vendo que ela est√° aqui, prestes a morrer por sua causa?


Sustentando o olhar arrogante, Licínio, incrédulo, acercou-se da ampla cama que acomodava a esposa. Fitando-a, exclamou:


- Não tive a intenção de machucá-la, mas ela insistia em interferir em minhas ordens!


- Não sente nada por ela, mesmo, não é?


- E quem voc√™ pensa que √© para questionar meus sentimentos, rapaz? Ainda n√£o sabe nada da vida, das dificuldades e desafios que o mundo nos imp√Ķe. N√£o tem o direito de julgar-me ou discutir meus atos.


- Você machucou a minha mãe, tratou-a com violência, e é só isso que me diz? Vem ainda me censurar...


Juliano interrompeu-se, em pranto. Licínio aproximou-se mais da mulher, auscultou-lhe o coração, ergueu-lhe a cabeça e observou o curativo e o ferimento. Depois, recolocando-a com cuidado na cama, ergueu-se e disse:


- A mim você não puxou, definitivamente. Parece uma mulherzinha choramingando. Vou buscar alguém que a possa ajudar.


Sem esperar pela resposta do rapaz, Lic√≠nio saiu decidido. Antes de deixar o c√īmodo, no entanto, virando-se para o rapaz, disse: 


- Mandarei um dos sacerdotes vir v√™-la. Depois partirei com meus melhores homens para terminar o que comecei. 

Quero expulsar definitivamente todos os funcion√°rios crist√£os que trabalham em √°reas administrativas do meu reino.

- Por que tanto ódio, meu pai?


- Voc√™ pensa que sabe alguma coisa sobre esses crist√£os, mas n√£o sabe. Eles s√£o como uma praga que se espalha por toda parte e se infiltra em todas as √°reas do imp√©rio. Um sem-n√ļmero de aristocratas da mais alta casta romana est√° se juntando a esses seguidores de um mestre nazareno que faz milagres e promete vida eterna... 


Vida eterna... Promete o paraíso...

- Eu realmente n√£o o compreendo, meu pai. N√£o foram voc√™ e meu tio que fizeram promulgar o √Čdito de Mil√£o, em que determinam que haja toler√Ęncia religiosa no imp√©rio? Voc√™ apoiou tio Constantino e fez valer essa lei. Por que fez isso, se n√£o aprecia os Crist√£os?


Licínio, de cenho fechado e olhar distante, considerou:


- Eram outros tempos, muito diferentes de agora. 


Constantino ainda tinha algum respeito pelos seus colegas militares, e talvez até mesmo pelos desgra-çados Cristãos. Agora, todos não passam de instrumentos de seus interesses, de bonecos em suas mãos... De coisas, entendeu? Coisas que ele usa conforme seus desejos e caprichos. A cada um ele usa e descarta, como fez comigo. Ou você acha que seu tio vai descansar enquanto não me enfrentar?

Licínio parou por um momento, depois bradou, ainda mais enfurecido:


- E vou derrot√°-lo! Ele n√£o me vencer√°!


Juliano baixou a cabe√ßa, limpando as l√°grimas, e fitou a m√£e com terna tristeza. Lic√≠nio sumiu esbravejando pelo corredor. Podia-se escutar sua voz ecoando pelo pal√°cio e desaparecendo aos poucos. Logo que Lic√≠nio afastou-se, Helena entrou depressa, trazendo consigo um m√©dico romano, que havia pouco se tornara crist√£o. J√° conhecendo a gravidade do problema de Const√Ęn-cia, ele n√£o demorou a fazer-lhe novo e cuidadoso curativo, e em seguida f√™-la beber um preparado que ele fizera com muitas ervas, para restituir-lhe a for√ßa e ajudar seu pr√≥prio corpo na restaura√ß√£o do ferimento. Helena o ajudava, observando-o em sil√™ncio. Juliano se afastara um pouco, pois n√£o suportava ver a m√£e naquelas condi√ß√Ķes. Ot√°vio n√£o havia ainda terminado os seus cuidados, quando Grip√≠nio, o sacerdote mais graduado e respons√°vel pelos servi√ßos aos deuses romanos, entrou no quarto em busca da mulher de Lic√≠nio. Juliano adiantou-se e informou:


- Ot√°vio j√° cuidou dela.


- Seu pai ordenou que eu a visse. 


- Pois ele n√£o est√° aqui agora. Eu, sim, e digo que ela j√° recebeu os cuidados de que necessitava. Deixe-nos. Meu pai n√£o sabia que eu j√° mandara vir ajuda, por isso foi procur√°-lo.

- Engano seu. Ele foi à minha procura porque confia em mim e sabe que farei o que é o melhor para salvar sua mãe.


- Ela já foi socorrida. Agradeço, mas não necessitamos mais de sua ajuda.


- Pois bem, se algo acontecer a ela, ser√° sua responsabilidade!


- Minha?! Ora essa! Meu pai foi quem quase a matou e você vem me dizer que a responsabilidade será minha?


- Então me deixe vê-la!


Ot√°vio, que terminara o atendimento, interveio:


- Consinta que ele a veja, Juliano. Que mal pode haver? O estado dela é muito grave e toda a ajuda é bem-vinda.


O rapaz afastou-se da cama para que Gripínio se aproximasse. Ele a examinou minuciosamente; depois se ajoelhou e fez alguns gestos, pedindo socorro aos deuses. Em seguida, fitou Otávio, que aguardava em silêncio, e disse a Juliano:


- Ela recebeu cuidados adequados. Agora está nas mãos dos deuses. Vou até o templo preparar um sacrifício especial pela vida dela. Eles haverão de me escutar.


Juliano balançou a cabeça sem dizer nada e Gripínio saiu do quarto. Otávio aproximou-se do rapaz e, tocando-lhe o ombro, disse:


- Como disse antes, o estado dela √© bem delicado. 


O que podemos fazer agora é pedir a Deus por ela.

- Ser√° que est√° sentindo muita dor?


Dessa vez foi Helena quem se aproximou e disse:


- Uma das ervas que Otávio lhe deu tem efeito de atenuar a dor. Dirigindo-se ao médico, ela indagou:


- N√£o h√° mais nada que possamos fazer?


- Continue dando o ch√° de hora em hora. Isso vai ajud√°-la. Se seu estado piorar, veremos o que podemos fazer. Por enquanto, temos de aguardar.


Helena se prontificou:


- Se você me permitir, Juliano, vou ficar aqui cuidando dela, dia e noite.


Otávio também se ofereceu:


- Tenho algumas tarefas para terminar, mas depois posso ficar aqui também.


Apertando as m√£os de Helena e depois de Ot√°vio, ele concordou:


- Aceito, por certo. O estado de Const√Ęncia alternou fases de ligeira melhora e de piora acen-tuada nos dias que se seguiram. Ela permanecia inconsciente. √Äs vezes sussurrava palavras desconexas, quase incompreens√≠veis, em outras calava completamente. Juliano, dedicado e amoroso, n√£o sa√≠a do lado da m√£e. Ot√°vio e Hele-na tamb√©m se revezavam em cuidados e aten√ß√£o e a jovem, vez por outra, ajoelhada √† beira da cama, orava ao Mestre que h√° pouco conhecera, rogando pela vida daquela mulher aparentemente fr√°gil, mas cheia de for√ßa interior. Muitas vezes, ao terminar suas ora√ß√Ķes, ia devagar at√© a cabeceira da cama e sussurrava no ouvido de Const√Ęncia:


- N√£o nos abandone. Por favor, lute!


Algumas semanas depois, a notícia do ocorrido com a irmã chegou aos ouvidos de Constantino3


Ele permanecia sentado, ocupando o lugar de maior destaque no centro de seus conselheiros, e ouvia a narrativa sobre as √ļltimas a√ß√Ķes de Lic√≠nio sem esbo√ßar nenhuma rea√ß√£o. Constantino era um general respeitado pelos seus homens e pelos seus s√ļditos. Conquistara cada peda√ßo do territ√≥rio romano que ora estava sob seu controle com muita ast√ļcia e arguta estrat√©gia, o que o tornara um conquistador querido e respeitado.

Com rosto de forte ossatura, transparecia em seu corpo e sua postura a determina√ß√£o e a coragem de, destemida e sabiamente, lutar pelas suas aspira√ß√Ķes. Constantino parecia incans√°vel e inabal√°vel. Nada tirava dele a calma e a determina√ß√£o na tomada de decis√Ķes e nas a√ß√Ķes. 


Ele raramente reagia e, sim, utilizava toda e qualquer informa√ß√£o ou situa√ß√£o em seu favor. 

Quando o mensageiro terminou de narrar o que se passava no império do Oriente, ele parecia distante, mas logo perguntou:

- E como est√° minha irm√£ agora?


- Não sabemos exatamente, parece que seu estado é muito grave.


- Está recebendo os cuidados devidos, ou Licínio a abandonou à própria sorte?


- Juliano, seu sobrinho, é quem está tomando conta dela. Constantino calou-se, pensativo. O silêncio era absoluto no salão, quando um soldado surgiu à porta e interrompeu a reunião:


- Senhor, um mensageiro da fronteira chegou apressado e deseja falar-lhe. Diz que é extremamente urgente.


Constantino não respondeu, apenas inclinou a cabeça afirmativamente. O soldado reproduziu o sinal positivo e saiu apressado. Logo retornou com o mensageiro, que aparentava abatimento e cansaço extremo.


- Senhor, trago not√≠cias da fronteira. M√°s not√≠cias, senhor. Constantino disse, atento: 


- O que houve?

- Os s√°rmatas se preparam para invadir o reino do Ocidente. J√° arregimentaram grande n√ļmero de homens, que n√£o param de chegar. O ex√©rcito deles est√° crescendo a cada dia.


O imperador guardou silêncio. Seus generais mais leais e seus conselheiros já o conheciam bem e sabiam que seu silêncio era a maior ameaça contra seus inimigos. Todos esperavam pelo que diria Constantino, sem se manifestarem. Ele se levantou, caminhou até um mapa de seu reino e de suas fronteiras, examinou o desenho com atenção, depois virou para o soldado e perguntou:


- Mostre-me onde exatamente se concentram.


O jovem foi até o desenho colocado sobre uma mesa enorme, observou o mapa com atenção, depois apontou:


- Est√£o aqui, entre as montanhas...


Constantino observou o lugar exato que o jovem apontara, depois sorriu levemente e sugeriu:


- Descanse e coma um pouco. Parece exausto.


- Agradeço, senhor, mas estou a seu serviço, aguardando suas ordens. Só descansarei depois que o atender, meu senhor.


Tocando-lhe o ombro, Constantino insistiu:


- Descanse, pois tenho planos para seu regresso.


O jovem escutava o imperador com atenção, assim como os demais ouvintes. Constantino aproximou-se do mapa, analisando ainda melhor cada detalhe, depois se virou para o rapaz e disse:


- Amanhã quero que parta bem cedo e vá direto ao meu amigo, Augusto do Oriente, Licínio.


Sem compreender, todos aguardavam o esclarecimento de seu líder, que prosseguiu depois de longa e premeditada pausa:


- Quero que Licínio nos permita atravessar seu território para exterminar-mos os sármatas. Quero que ele me autorize a atravessar suas cidades mais lucrativas, para surpreender os sármatas, pelos flancos, certamente por onde não esperam que ataquemos.


Um de seus generais apenas balbuciou:


- Mas esse √© o caminho mais longo... Constantino comentou, com sorriso ir√īnico:


- Pode até ser mais longo, mas iremos conquistando tudo o que estiver em nosso caminho. Ao nos defrontarmos com os sármatas, não somente nosso exército será maior, como meu império estará consolidado. Confie em mim, Galenius, sei o que estou fazendo. Erguendo todo o seu corpo e esticando o braço em sinal de profundo respeito, Galenius saudou o seu imperador:


- N√£o tenho a menor d√ļvida disso! Ave C√©sar! 


Todos em uníssono repetiram:

-Ave!


Constantino manteve-se s√©rio e em sil√™ncio. No entanto, um observador atento registraria em seu olhar a enorme satisfa√ß√£o que sentia pela destacada posi√ß√£o que ocupava, pela admira√ß√£o que recebia de seus subordinados e s√ļditos, bem como pela perspectiva cada vez mais pr√≥xima de tornar-se o √ļnico imperador de Roma.


3 Constantino I, Constantino Magno ou Constantino, o Grande.
Capítulo 3 - A Medida

A medida que os generais e conselheiros deixavam a sala em alvoro√ßada conversa, Constantino acomodou-se em sua cadeira suntuosa, seu trono. Sentou-se e observou seus homens se afastando; apenas os mais pr√≥ximos ainda permaneceram com ele. Mentalmente, felicitou-se por estar mais uma vez aproveitando t√£o bem as circunst√Ęncias em seu favor. Claro que n√£o ficara feliz com a not√≠cia de que a irm√£ estava doente, mas a agress√£o de Lic√≠nio contra ela era desculpa mais do que suficiente para que seus homens o seguissem em sua condi√ß√£o de Augusto ferido no orgulho familiar. Lic√≠nio mais uma vez passava por um brutamontes, e deveria ser contido a todo o custo.

Ele acompanhou a movimentação com o olhar, depois fitou Marco e indagou:


- Est√° comigo no que pretendo fazer?


- Sim, sem restri√ß√Ķes, senhor.


Constantino levantou-se, tocou-lhe o ombro e comentou:


- Meu bom Marco, eu sei que posso contar com você. O outro respondeu sem pensar:


- E como poderia ser diferente? Licínio quase lhe mata a irmã!


Constantino aproveitou e, ainda que demonstrasse fixar apenas Marcos, estudava de canto de olho as m√≠nimas rea√ß√Ķes de Helenus e Domenico; consciente da admira√ß√£o e do respeito que ambos dedicavam aos crist√£os, arrematou:


- Ele est√° piorando a cada dia. E esse problema com os crist√£os, agora?


Os outros dois permaneciam calados. Marco, Helenus e Domenico eram os tr√™s homens de confian√ßa absoluta de Constantino, o que no imp√©rio romano daquela √©poca era algo quase imposs√≠vel. Temia-se at√© a pr√≥pria sombra. Os tr√™s generais que ocupavam a mais alta gradua√ß√£o do ex√©rcito pretoriano haviam sido transformados em guarda pessoal do imperador do Ocidente e agora acompanhavam-no em tudo, participando de todas as suas decis√Ķes. Experientes e astutos, apoiavam Constantino, n√£o sem questionar-lhe, muitas vezes, as a√ß√Ķes.


Constantino calou-se, usando o sil√™ncio como t√£o bem sabia fazer. Voltou a sentar-se e fixou o olhar para fora da janela, distante. Pensava ativamente nas estrat√©gias que usaria para vencer Lic√≠nio. 


Esperava pelo apoio de seus homens de confian√ßa, pois sabia do tremendo desafio que vencer o imperador do Oriente representaria. Seria uma batalha das mais dif√≠ceis, pois o pr√≥prio Lic√≠nio era igualmente um general experiente e dominador, possuindo um ex√©rcito muito maior do que o de Constantino, em n√ļmero de homens.

Finalmente, Helenus e Domenico aproximaram-se de Constantino e, reverenciando-o, afirmaram:
- Também estamos com você em sua decisão. Licínio precisa ser detido.


- √ďtimo. Logo mais nos reuniremos para tra√ßar um plano de ataque detalhado. J√° tenho algumas id√©ias e poderemos definir nossa estrat√©gia.


Helenus e Domenico se retiraram, enquanto Marco permaneceu ao lado de seu imperador, a quem tanto admirava. Daria a pr√≥pria vida por ele, tamanha sua admira√ß√£o. Constantino, confortavelmente instalado em seu trono, pensava em suas estrat√©gias, e, apesar de estar convicto de sua decis√£o, sentia um desconforto ao imaginar-se confrontando Lic√≠nio. Era a sua consci√™ncia que buscava espa√ßo para alert√°-lo do perigo de suas inten√ß√Ķes.


Ao perceber-lhe o titubear sutil, duas entidades espirituais, trajando pesado manto negro, aproximaram-se dele e sussurraram-lhe aos ouvidos da mente: "Lic√≠nio precisa ser detido. 


N√£o h√° nada de errado nisso. Voc√™, e somente voc√™, deve ser o √ļnico e absoluto C√©sar de Roma. Ser√° muito melhor para o imp√©rio. Um reino dividido n√£o pode subsistir. Roma precisa de voc√™.

Voc√™, Constantino I, ser√° um imperador que marcar√° a hist√≥ria de sua √©poca e jamais ser√° esquecido. Um reino dividido n√£o pode subsistir... 

Um reino dividido n√£o pode subsistir...".

Registrando as palavras do esp√≠rito ao seu lado, Constantino tomou-as como seus pr√≥prios pensamentos e sentiu-se aliviado. Sem d√ļvida, estava fazendo o correto.


Distante dali, Juliano acabara de pousar sobre a mesa uma cumbuca com √°gua fresca que dera √† m√£e. Olhando pela janela, suspirou profundamente. Com olhar distante, pensava no pai, no tio e em toda a situa√ß√£o do imp√©rio. Ele desprezava a atitude de Lic√≠nio, sua gan√Ęncia e seu desejo de poder o enojavam - especialmente porque detectava na corte, e naqueles que circundavam seu pai e acompanhavam seus passos de perto, os interesses acima de tudo.


Percebia o ambiente hostil em que passara toda a sua vida, com medo de todos, sempre protegido pela m√£e. Aquilo n√£o era a vida que ele imaginava.

N√£o apreciava aquela disputa pelo poder a qualquer pre√ßo. Quando acompanhava o pai em alguma viagem perigosa, a m√£e sempre o cercava de uma guarda pessoal refor√ßada, temendo pela sua vida. Ela temia at√© que o pr√≥prio pai lhe fi-zesse mal, e ele tamb√©m. Definitivamente n√£o confiava no pai. Tamb√©m n√£o confiava no tio. 

A √ļnica pessoa em quem de fato confiava era sua m√£e. E naquele momento ela estava naquele estado, praticamente entre a vida e a morte.
Estava distraído quando escutou:


- Meu filho...


Sem acreditar, correu até a mãe. Ajoelhando-se, beijou-lhe a face e em lágrimas balbuciou:


- Mãe... graças aos céus...


- Onde est√° seu pai?


- Eu n√£o sei. Ele viajou, acho. Fique calada, m√£e, voc√™ n√£o pode fazer nenhum esfor√ßo. Foi ferida gravemente e precisa ficar tranq√ľila para se curar.


- Seu tio...


- Constantino?


- Sim... Precisamos falar com ele...


- Por quê?


- Sei que algo ruim vai acontecer...


- Não, mãe, você precisa se acalmar. Tudo ficará bem, mas precisa ficar calma. Como se sente?


- Estou com fome. Juliano exclamou sorrindo:


- Isso √© um √≥timo sinal! Voc√™ est√° melhorando! 


Que maravilha, mal posso crer...

- Pensou que iria livrar-se de mim t√£o f√°cil?...


- N√£o diga isso, m√£e. N√£o sabe o quanto sofri esse tempo todo.


- Faz tempo que estou aqui, nesta cama?


- Umas duas semanas.


Fazendo menção de erguer-se, foi impedida pelo rapaz:


- Não, mãe, o que está fazendo? Não pode levantar-se ainda. Deixe que Otávio a examine primeiro. Você ficou muito mal...


Const√Ęncia, impedida pelo filho, voltou a deitar-se enquanto falou:


- Sinto-me bem. Apenas um pouco tonta e fraca, mas estou bem. N√£o tenho nenhuma dor.


- Mas seu corte foi fundo e voc√™ perdeu muito sangue. Agora vai precisar de uma dieta especial por algum tempo para poder recuperar-se por completo. Portanto, fique a√≠ quietinha. Logo Helena vir√° e ent√£o pedirei que chame Ot√°vio. 


Somente ele poder√° autoriz√°-la a se levantar. 

- Estou aflita por seu pai. Onde ele est√°?

- J√° disse que viajou, m√£e.


- Para onde? Quando volta?


- Ele saiu daqui enfurecido. Sabe que tio Constantino o irrita profundamente.
- Eu sei.


- E receio, m√£e, que n√£o haja mais nada que possamos fazer.


- Eles se enfrentar√£o em breve.


- O que me diz? Ele lhe falou que iria atacar Constantino?


- N√£o. Constantino marchar√° contra seu pai.
- Como sabe?


- Eu simplesmente sei e temo por ele.


- Como pode ainda querer-lhe bem, depois de tudo? E n√£o somente o que lhe fez agora, mas a forma como a tratou a vida inteira?


- Fui e sou fiel aos meus deveres. E você também deve ser. O caráter de um homem se mede pelo respeito que ele tem por si mesmo e pelos seus semelhantes.


- Acontece que meu pai não tem respeito por ninguém.


- E como aprender√°, se o tratarmos de igual modo?


Juliano sorriu afetuoso e comentou, depois de longo período de silêncio:


- Simplesmente n√£o sei como consegue, m√£e. Const√Ęncia insistiu:


- Sabe onde ele est√°?


- N√£o, m√£e, ele n√£o me disse nada e realmente n√£o me interessei em saber. Em breve estar√° de volta.


Apreensiva, ela balbuciou:


- N√£o tenho tanta certeza...


Helena entrou e ao deparar com os dois conversando, correu ao encontro deles, chorando:


- Minha senhora, graças a Deus acordou! Está melhorando...


A madura senhora respondeu:


- Seria melhor estar no mundo espiritual agora, mas ainda tenho tarefas a cumprir por aqui.


Limpando as l√°grimas Helena disse, segurando as m√£os de sua senhora:


- Fico feliz, a senhora nos faria muita falta.
Capítulo 4 - Duas Testemunhas

Duas testemunhas espirituais assistiam √†quela cena repleta de alegria, suavidade e amor. Com vestes di√°fanas e luminescentes, Ang√©lica acompanhava o despertar de Const√Ęncia, de quem havia cuidado carinhosamente. Sorrindo, ao constatar finalmente a recupera√ß√£o de sua protegida, comentou com Maur√≠cio:

- Pode voltar agora √† col√īnia. Ela ficar√° bem.


O belo rapaz, que mais lembrava a figura de um anjo, tão insistentemente retratado por artistas de todos os tempos, fitou Angélica com ternura e perguntou:


- Tem certeza?


- Sim, ela conseguiu responder muito bem ao nosso tratamento. Seu corpo está em recuperação e o quadro é promissor.


Fazendo pequena pausa, ela prosseguiu, com suave entonação na voz:


- Você ajudou muito, agradeço mais uma vez.


- Não me agradeça. Devemos tudo a Jesus.


- Sim, eu sei. Agora √© importante que voc√™ retorne √† col√īnia, levando a Ernesto as boas not√≠cias. Pelo empenho com que tem acompanhado o processo de expans√£o do Evangelho de Jesus sobre a Terra e pelo seu envolvimento em todos os detalhes, ele gostar√° de saber que conseguimos impedir a partida de Const√Ęncia antes do previsto.


- Vou agora mesmo. Você me parece cansada. Vai demorar-se muito ainda aqui?


- Ficarei até que a situação se acalme.


- Mas parece agravar-se cada vez mais.


- Você sabe o porquê.


Ambos emudeceram por longo tempo. Maurício, por fim, comentou:


- √Č... N√£o podemos desanimar.


- De modo algum; vamos perseverar. O Cristianismo haverá de triunfar sobre a Terra. Por mais que haja resistência de todos os lados, a verdade que Jesus veio trazer à humanidade prevalecerá!


- Por quanto tempo ainda negaremos e deturparemos seus ensinamentos? 


Por que o homem n√£o compreende o que o Mestre veio ensinar?

- Porque somos ainda crianças, espiritualmente falando. Temos muito a aprender, e enxergamos tudo com nossa limitada compreensão da realidade.


- E por que alguns conseguem e outros n√£o? 


- √Č por causa da humildade e da f√©. Alguns j√° conseguem ser humildes o suficiente para intuir que s√£o limitados demais, e n√£o podem confiar nas pr√≥prias interpreta√ß√Ķes; precisam buscar a verdade. E mais do que isso: est√£o dispostos a fazer o esfor√ßo necess√°rio para trilhar o caminho da ilumina√ß√£o espiritual, da regenera√ß√£o de si mesmos. Est√£o dispostos a abrir m√£o dos prazeres e ilus√Ķes passageiros, para dedicar seus esfor√ßos √†quilo que √© essencial e perene.

- Por quanto tempo ainda os cristãos sofrerão tamanha perseguição? Não deveria ser assim, não é mesmo?


- Quem somos n√≥s para tirar esse tipo de conclus√£o? No entanto, meu mais profundo desejo √© que os homens despertem do sono da ignor√Ęncia em que ainda est√£o imersos. Mas agora √© melhor que voc√™ v√°. Leve not√≠cias e pe√ßa novas orienta√ß√Ķes. 


Preciso saber em que poderei ajudar, no caso de as suspeitas de Const√Ęncia estarem certas. As circunst√Ęncias se precipitam cada vez mais e estou receosa pelas decis√Ķes que Constantino tem tomado; ele vem colaborando com os nossos objetivos, como se prop√īs, mas sinto que pouco a pouco distancia-se, na ess√™ncia, daquilo que deveria fazer.

- Mas ainda age em nosso favor.


- Aparentemente. Entretanto, sinto que suas motiva√ß√Ķes est√£o se desvirtuando.


- Se estiver certa, ele poder√° perder-se a qualquer momento.


- Esse é o meu receio. Preciso da ajuda de nossos orientadores do Mais Alto.


Sem demora, ambos se despediram e Mauricio partiu em dire√ß√£o a uma col√īnia espiritual situada sobre a regi√£o da Europa central. N√£o teve dificuldade de ultrapassar a grande diferen√ßa de vibra√ß√Ķes entre os planos material e espiritual, e logo cruzava enorme port√£o que se abria para uma regi√£o espiritual de serena suavidade e intensa atividade do bem. A atmosfera se fez mais leve, doce fragr√Ęncia de flores as mais diversas invadia o ar; p√°ssaros e borboletas coloridas cruzavam o c√©u. Maur√≠cio deteve-se diante da beleza da col√īnia e respirou fundo, haurindo com satisfa√ß√£o as energias sutis que vibravam no ambiente. 


Entrou. Logo estava em companhia de Ernesto, que o aguardava:

- Maurício, é bom vê-lo. Que notícias nos traz dos irmãos encarnados?


Acomodando-se ao lado do orientador, Maurício suspirou:


- A situação continua difícil.


- Tenho percebido grande adensamento energético sobre o planeta.


- Sim, como se nuvens negras e pesadas se acumulassem sobre a Crosta. Apesar disso, trago-lhe boas not√≠cias. Conseguimos contribuir efetivamente para a melhora de Const√Ęncia. Ela acaba de despertar e se recupera muito bem.


- Excelente trabalho, Maurício. Ela é nossa grande aliada no sentido de manter Constantino nos trilhos de sua programação. Ela é fundamental. O rapaz prosseguiu, interessado:


- Angélica continua dedicada à sua recuperação.


- Ela tem conseguido maior influência sobre Constantino?


- Tem trabalhado muito, mas também está receosa de que ele se desvie de sua tarefa.


- Honestamente, Maurício, eu também estou, e muito.


O jovem fitou Ernesto sem dizer palavra. Também estava apreensivo. Depois de breve pausa, indagou:


- Achei que talvez Angélica exagerasse... Então ele realmente está se desviando da tarefa?


- Pouco a pouco, quase imperceptivelmente, vem se distanciando de nossa programação.


- E o que podemos fazer?


- Faremos tudo o que estiver ao nosso alcance, mas a decisão é dele.


Sério, Maurício indagou:


- Conhece-o h√° muito tempo?


- Sim, desde Capela. Surpreso, Maurício comentou:


- √Č... faz tempo mesmo. Tamb√©m vieram de l√°?


- E chegamos antes de você, um pouco antes.


- A grande maioria j√° retornou....


- Contudo, há ainda muitos por aqui. Estamos tentando, não é mesmo?


- Sinto saudade de meu verdadeiro lar. Desejo retornar assim que for poss√≠vel; mas como fazer isso, deixando para tr√°s tantas pessoas queridas? 


N√£o posso, por enquanto.

- Sei bem o que sente. √Č o caso de Ferdinando, ora vivendo na Terra como Constantino.


- Ele j√° tem preparo suficiente para realizar a tarefa que se prop√īs.


- Certamente. Entretanto, não importa quão preparados estejamos, sempre poderemos falhar; basta uma distração, um enveredar pelo caminho do orgulho e nos deixar dominar por ele, e pronto. O retorno fica muito difícil.


Calaram-se novamente. Ernesto ergueu-se, caminhou até uma grande janela que dava para florido jardim e comentou, por fim:


- Continuemos orando e confiando. Deus jamais permite que se coloque sobre qualquer de seus filhos peso maior do que est√° preparado para suportar. Confiemos que Constantino ser√° capaz de reencontrar-se e ser vitorioso, afinal.
Cap√≠tulo 5 - Era Madrugada 

Era madrugada quando o mensageiro de Constantino alcan√ßou os port√Ķes de Biz√Ęncio. Const√Ęncia, que se recuperara quase completamente do triste incidente com o marido, deu um pulo na cama e sentou-se, tremendo, assustada. Ofegante, tirou o pequeno crucifixo que trazia junto ao peito e suplicou:

- Mestre Jesus, socorra-me e à minha família. Meu coração está opresso e me diz que algo sombrio está por acontecer. Ajude-nos, por favor...


Sem compreender por que a dor no peito a oprimia tanto, n√£o p√īde conter as l√°grimas que lhe desciam pela face alva. Pedindo repetidamente o socorro de Jesus e de seus enviados, ela finalmente conseguiu acalmar-se e voltou a se deitar. 


Entretanto, por mais que tentasse, n√£o conseguia conciliar o sono e revirou-se na cama at√© o sol brilhar intenso no c√©u do Mediterr√Ęneo.

Assim que adentrou os port√Ķes da fortificada cidade, o mensageiro do Augusto do Ocidente deu de comer ao seu cavalo e descansou brevemente. 


Tinha ordens de seu general para retornar com a resposta de Licínio tão logo a obtivesse. Quando o dia amanheceu, dois soldados da guarda pessoal do imperador vieram buscá-lo:

- O imperador Licínio irá recebê-lo agora. Acompanhe-nos.


Prontamente o mensageiro os seguiu at√© o imperador. Ajoelhado diante do grande general que dividia o poder do imp√©rio romano com Constantino, o jovem permaneceu calado, aguardando as instru√ß√Ķes do soberano, que depois de longo sil√™ncio indagou:


- O que quer Constantino?


- Os sármatas ameaçam nossa fronteira, senhor, e Constantino pede autorização para cruzar seu território, a fim de surpreender o inimigo, antes que este avance sobre Roma.


- O quê? Que estratégia ridícula é essa de seu imperador? O que ele pretende? Vamos, responda!


Sem erguer os olhos, o rapaz apenas disse:


- Eu n√£o sei, senhor. A √ļnica orienta√ß√£o que recebi foi para pedir-lhe a autoriza√ß√£o e retornar imediatamente com sua resposta.


Licínio sorriu, cínico, e insistiu:


- N√£o sabe? Tem certeza? Vociferou ent√£o, com o rapaz:


- Vamos, diga o que Constantino planeja! Você não é um soldado? Deve saber, então.


Trêmulo, o rapaz redarguiu:


- Eu n√£o sei, senhor, apenas cumpro ordens. 


- E por que Constantino planeja atacar os s√°rmatas por minhas terras? √Č certamente o caminho mais longo. Decerto ele planeja algo contra mim.

Licínio levantou-se e caminhou até a janela da ampla sala. Ficou longo tempo em silêncio, olhando pela janela. Depois, aproximou-se do rapaz e, encostando a cabeça na dele, segurou-lhe a face com uma das mãos e gritou com violência:


- Sei muito bem o que ele planeja. Vou esperá-lo muito bem preparado. E quanto a você, meu rapaz, se quiser fixar residência aqui, a partir de agora, será poupado de longa e dolorosa viagem.


O jovem soldado fitou o general, que naquele momento lhe parecia ainda mais alto e mais forte, antes de responder com estranheza:


- N√£o posso, senhor... Meu general me aguarda. 


Com ar prepotente e arrogante, Licínio ordenou:

- Pois bem, que assim seja. Quero dar uma resposta contundente ao seu senhor.


E chamando um de seus homens, ordenou:


- Levem-no ao poste. Cem chibatadas, depois deixem-no partir.


O rapaz fitou o imperador com os olhos arregalados, mal acreditando no que escutava. 


Sabia que Lic√≠nio era um general duro e muito experiente, mas jamais esperaria tal atitude de um outro soldado. Sem dizer palavra, foi arrastado pelos guardas e chicoteado impiedosamente. 

Depois, colocaram-no sobre o cavalo e mandaram-no partir. Embora muito machucado, ele conseguiu conduzir seu cavalo até a divisa dos domínios do Oriente com os do Ocidente. Foi socorrido pelos colegas e logo acomodado em um leito, para receber tratamento. Antes de ficar inconsciente, disse com enorme esforço:
- Ele n√£o permitir√°...


O general, que pessoalmente o auxiliava, acalmou o rapaz:


- Nós já sabemos. Agora, descanse.


Logo o soldado ficou inconsciente. E depois de duas noites naquele estado, n√£o resistiu aos ferimentos que, associados √† longa jornada, ceifaram-lhe a jovem vida. Alguns dias depois, Constantino chegou ao acampamento, com seu ex√©rcito j√° arregimentado e ordenando que todos os seus melhores homens, espalhados pelo imp√©rio, se juntassem a ele para a batalha iminente. Policarpo, o general respons√°vel pelo acampamento pr√≥ximo √† divisa, detalhou o estado em que o jovem chegara. Cheio de √≥dio, Constantino f√™-lo repetir a narrativa a todo o acampamento e, ao final, mostrando-se indignado, proferiu suas ordens da maneira mais eloq√ľente:


- E por essas decis√Ķes arbitr√°rias que temos de tomar o reino do Oriente das m√£os de Lic√≠nio. 


Invadiremos Biz√Ęncio e subjugaremos o imperador do Oriente e seus homens mais fi√©is. Chega de agress√Ķes descabidas. Primeiro os crist√£os, depois minha pr√≥pria irm√£ quase morreu nas m√£os desse monstro, e agora esse jovem inocente, que simplesmente cumpria ordens, deixando sua fam√≠lia, por estupidez absoluta.

Fez longa e calculada pausa, e depois concluiu:


- Não toleraremos mais isso! Sigam-me e seremos vitoriosos! Vou liderá-los pessoalmente nesta batalha e, ouçam bem o que digo, nós venceremos!


Envolvidos pela emoção que as palavras inflamadas de Constantino lhes causavam, eles gritaram, liderados pelos homens de confiança do imperador:


- Ave C√©sar, √ļnico imperador de Roma!


Constantino fitou os seus homens a ovacion√°-lo e emocionou-se. Eram mais de 100 mil homens a gritar diante dele. Sentia com todas as for√ßas que venceria Lic√≠nio e se tornaria o √ļnico imperador. 


Era esse, agora, seu propósito. Toda a sua força estava voltada para esse fim. Retirou-se com seus generais, para organizar o ataque que fariam em breve à capital do Oriente.

Durante v√°rios dias o ex√©rcito de Constantino avan√ßou mais e mais, rumo a Biz√Ęncio, cidade que pretendiam dominar e ocupar. De fato, Constantino desejava fazer dela a sede de seu imp√©rio. Famosa pela posi√ß√£o estrat√©gica que ocupava, desde muito havia despertado o interesse do grande general. Quanto mais avan√ßavam, mais crescia o n√ļmero de soldados. Acampavam √† noite, e mal o dia amanhecia todos se punham a caminho. Superaram o frio e regi√Ķes de dif√≠cil acesso, mas foi √†s margens do rio Ebro, pouco distante de Biz√Ęncio, que foram obrigados a parar, dada a violenta correnteza que dificultava a tra-vessia dos 120 mil soldados, entre homens de infantaria e cavalaria.


Constantino determinou que acampassem:


- E in√ļtil avan√ßarmos agora. Precisamos entender bem a situa√ß√£o de nosso oponente. Passaremos esta noite aqui.


Marco observou, preocupado:


- Acho bom mesmo descansarmos. Os homens est√£o exaustos .


- Pois ficaremos aqui por ora. Marco, quero que envie uma pequena tropa de seus melhores homens - pequena mesmo, dois ou três - para que verifiquem a situação logo após o rio. Precisamos saber exatamente a situação de Licínio.


Atendendo de pronto à ordem de seu imperador, Marco retornou algum tempo depois, informando:


- Estão a caminho. Enviei três de meus melhores soldados.


- √ďtimo. Aguardaremos o retorno deles. Quero que montem v√°rios turnos de descanso, e que metade dos homens esteja sempre desperta e em alerta. Lic√≠nio pode atacar a qualquer momento.


Marco indagou, surpreso: 


- Acredita mesmo que ele planeja atac√°-lo, senhor?

- Acredito que um homem desesperado seja capaz de qualquer ação.


Ao final da tarde seguinte, os tr√™s experientes soldados retornaram trazendo informa√ß√Ķes precisas e preciosas, que foram logo levadas a Constantino.


- As tropas de Lic√≠nio ocupam as plan√≠cies de Adrian√≥polis. Est√£o espalhadas por terrenos elevados, o que definitivamente lhes garante vantagem, pelas condi√ß√Ķes do terreno.


- Quantos homens?


- E grande demais o seu ex√©rcito. Meus homens ficaram muito impressionados. Relataram que o campo est√° como coberto por formigas. S√£o muitos homens. Garantem que excede em n√ļmero nosso ex√©rcito.


Constantino ficou longo tempo pensando e depois ordenou:


- Iniciaremos a construção de uma ponte ainda de madrugada. Quero muitos envolvidos nessa construção. Metade dos homens deve se dedicar à empreitada.


Os generais de Constantino o ouviam atentos. Jamais questionavam suas ordens ou suas estratégias, que muitas vezes não compreendiam, mas sabiam que elas já haviam concedido àquele exército mais de dezessete vitórias; portanto, confiavam em seu general. E o seguiriam lealmente até a morte.


V√°rios dias se passaram, e a ponte se erguia pouco a pouco sobre o rio.


Naquela noite, ao despedir-se de seus homens, Constantino sabia que a hora de atacar havia chegado. Sabia que o oponente acompanhava suas manobras, e chegara a hora de surpreendê-lo. No meio da madrugada, mandou chamar seus três principais generais e ordenou:


- Quero um regimento com cinco mil arqueiros. 


Vamos atravessar o rio e nos embrenhar pela floresta densa; surpreenderemos os homens de Lic√≠nio pela retaguarda. Eles n√£o nos esperam. 

Meu objetivo é atacar o acampamento de Licínio.

Os generais se entreolharam, surpresos pela ordem inesperada; no entanto, não ousaram sequer fazer qualquer comentário. Obedeceram de pronto. Sabiam que o elemento surpresa seria fundamental na ousada estratégia de Constantino.


Antes de saírem, Marco virou-se para Constantino e perguntou:

- Permita-me saber se poderei estar entre os líderes desse ataque.


- Você e os demais, meus homens de confiança. E eu, pessoalmente, vou liderar o ataque.


Fazendo posição de sentido e olhando com profunda admiração para aque-le jovem general que estava diante dele, Marco se retirou. Ao sair da tenda de Constantino, cruzou com Crispus, filho mais velho do imperador, que entrou ansioso, indagando: - Vai sair à batalha, meu pai?


- Assim que os homens estiverem prontos.


- Quero acompanh√°-lo.


- Seja paciente, Crispus, tenho planos para você.
- Que planos, senhor?


- Dada a sua habilidade n√°utica, quero poup√°-lo para o poss√≠vel confronto que teremos com a armada de Lic√≠nio, que ocupa o estreito de Helesponto. Temos de derrot√°-los no mar para poder aniquil√°-los de fato. N√£o podemos correr o risco de desembarcarem e nos atacarem no momento em que estivermos para invadir Biz√Ęncio. O que sabe sobre a armada?


- Sei que é poderosa, com mais de 350 navios grandes e bem equipados ocupando todo o Helesponto.


Fitando o rapaz como a desafi√°-lo, o mais velho inquiriu:


- E o que voc√™ pensa sobre isso? O que acha? 

Pode vencê-los? Crispus pensou um pouco, depois continuou:

- Nossa frota é bem menor, é verdade, mas nossos homens são leais e corajosos. Aguardam suas ordens, prontos a obedecer.


Tocando com a m√£o direita o ombro do filho, Constantino autorizou:


- Muito bem, meu filho, aguarde minhas ordens. Permaneça no acampamento. Sua luta será no mar.


Diligente, o rapaz assentiu com a cabeça e respondeu:


- Atenderei prontamente às suas ordens.


- Voltarei em breve com a vit√≥ria para prosseguirmos rumo √† conquista definitiva de Biz√Ęncio e √† derrota final de Lic√≠nio. Quero que destrua completamente sua for√ßa n√°utica; transforme-os em fuma√ßa...


Crispus t√£o-somente respondeu:


- Pois assim ser√°!


Logo em seguida Marco entrou e comunicou:
- Estamos prontos, senhor.


Constantino vestiu a armadura, empunhou a pesada espada que o acompanhara em tantas outras batalhas e, fitando-a como a conversar com ela, conclamou em alta voz:


- À vitória!
Capítulo 6 - Enquanto Caminha

Enquanto caminhava pela col√īnia, em um dos grandes jardins floridos, Ang√©lica cumprimentava os amigos e colegas com quem compartilhara trabalho e aprendizado. Ela tamb√©m viera de Capela e alcan√ßara, atrav√©s de esfor√ßo e dedica√ß√£o em diversas encarna√ß√Ķes penosas, significativo progresso. Estava pronta para retornar √† constela√ß√£o do Cocheiro, mas embora sua alma suspirasse por voltar ao lar, seu cora√ß√£o se enchera de compaix√£o pelos habitantes da Terra e seu dif√≠cil caminho de evolu√ß√£o. Queria ajudar e, como Ernesto, resolvera permanecer para isso.

Finalmente chegou a uma grande construção, onde Ernesto a aguardava. Assim que a viu, encheu-se de alegria. E abraçando-a exultou:


- √Č bom v√™-la outra vez, Ang√©lica.


Retribuindo-lhe o carinho, ela o abraçou ternamente e disse:


- Tamb√©m estava com saudade, mas achei melhor permanecer junto a Const√Ęncia.


Deixando visível sua preocupação, Ernesto comentou:


- A situação está piorando muito, não é?


- Muito. Const√Ęncia j√° n√£o consegue acesso ao irm√£o. Constantino distanciou-se emocionalmente de toda a fam√≠lia. Inclusive dos pr√≥prios filhos. 


Tem se enclausurado em si mesmo cada vez mais, e perigosamente acredita naquilo que falam sobre ele.

Entristecido, Ernesto lamentou:


- O poder o est√° cegando totalmente.


- Eu temo que sim.


- O poder que ele deveria utilizar para fortalecer o bem e a verdade, para fazer expandir-se sobre a Terra a luz do Evangelho, est√° usando para satisfazer as pr√≥prias paix√Ķes.


- E isso mesmo. Infelizmente, creio que ele n√£o conseguir√°! Ernesto calou-se e meditou por longo tempo. Depois, perguntou:


- E como est√° Const√Ęncia?


- Apesar de fisicamente recuperada, sua alma sofre muito, pois sabe que ambos, Licínio e Constantino, se desviaram de suas tarefas, e estão prestes a se confrontar.


- E eram dois imperadores justamente para se ajudarem mutuamente em tarefa de tamanha responsabilidade.


- Não resistiram aos apelos da personalidade, do ego. Ao egocentrismo e ao endeusamento de si mesmos. Suspirando fundo, Angélica emendou:


- Nossa irmã sofre profundamente, pois intui a dor e o sofrimento que os aguarda após deixarem a Terra.


A jovem fez uma pausa, depois continuou:


- O que poderemos fazer, Ernesto? Uma programação reencarnatória tão preparada, longamente planejada, agora prestes a se perder...


- E... O livre-arbítrio. Não podemos impedir que Constantino faça suas escolhas. Ele tem esse direito. E aqueles que o seguem também. O que podemos fazer, agora, é rogar ao Pai Celeste nos socorra e nos oriente.


- Eles est√£o prestes a se enfrentar. Talvez o fa√ßam agora, enquanto nos falamos. Constantino alcan√ßou as plan√≠cies de Adrian√≥polis com mais de 120 mil homens; Lic√≠nio est√° acampado com seus homens nas plan√≠cies, j√° mais para o lado de Biz√Ęncio. A guerra √© inevit√°vel e...


Ang√©lica n√£o p√īde continuar. A dor tomou conta de seu cora√ß√£o e pesadas l√°grimas desciam pela sua face. Ernesto buscou consol√°-la e disse, tocando suas m√£os:


- Sei que é difícil...


- Quantas vidas perdidas... Quanto sofrimento in√ļtil... Quanta dor se projetando para o futuro dessas almas...


- Sim, minha irm√£, infelizmente. Limpando as l√°grimas, ela indagou:


- Por quê? Por que ainda é tão difícil para os homens compreender...


- Porque a verdade incomoda os homens, Angélica.


- Por quê?


Ernesto pensou por alguns momentos, depois, envolto em safírica luz, disse:


- Os homens tentam de todas as maneiras fugir de sua difícil, angustiosa situação espiritual.


- Por que não procuram sair da situação, para serem mais felizes? A verdade nos liberta, nos faz donos de nossos destinos, nos aproxima de Deus e nos torna seres mais felizes.


- N√£o sem antes nos obrigar e enxergar nossa real condi√ß√£o espiritual. Jesus trouxe para os homens a consci√™ncia de nossa real condi√ß√£o espiritual, ar-rancando-nos das ilus√Ķes em que nos apoi√°vamos, acreditando-nos possuidores de uma superioridade que n√£o existe.


Fez curta pausa. Angélica o escutava atenta. Ele continuou:


- Conscientes de nossa real situa√ß√£o, temos de tomar uma decis√£o, e arcar com as conseq√ľ√™ncias advindas dela. Podemos optar pela ilumina√ß√£o espiritual, conscientes de que ela √© √°rdua, dif√≠cil e demorada, mas o √ļnico caminho para nossa real felicidade. Ou ent√£o, abafar a consci√™ncia e escolher a fantasia, a mentira, pois ela nos d√° maior prazer, maior satisfa√ß√£o e n√£o nos obriga a empreender os esfor√ßos de resigna√ß√£o, humildade e desapego √†s ilus√Ķes, principalmente sobre n√≥s mesmos.


Angélica balançou a cabeça em sinal afirmativo e disse:


- Tem razão, meu sábio amigo. A verdade nos liberta, mas depende de nosso esforço e coragem para nos vermos como realmente somos.


- Exatamente. Por isso matamos Jesus impiedosamente. Calando o Messias, tentamos fazer silenciar a própria consciência que gritava dentro de nós.


Angélica ia fazer uma pergunta, quando Ernesto sugeriu:


- Oremos a Deus. Ele haverá de nos orientar. E acima de tudo, tenhamos paciência, sabendo que nós mesmos viemos de longa data fugindo destas verdades...


Angélica sorriu ao repetir:


- Paciência...


E Ernesto finalizou:


- E muita perseverança. O bem triunfará, isso é inevitável. A verdade será vitoriosa.

Introdução - O Mar Estava Agitado O mar estava agitado. A pequena embarcação se afastava com dificuldade, buscando alcançar o navio que ...